O que, afinal, a Psicologia tem a ver com o corpo?

Inicialmente, quando pensamos em Psicologia, logo somos levados a pensar sobre o estudo e as intervenções sobre a vida e saúde mental das pessoas, não é verdade? Mesmo a origem da palavra Psicologia (do grego Psyche, ‘alma’ e Logos, ‘estudo’) nos conduz a esse raciocínio – Estudo da Alma. Nada a ver com corpo.

Porém, olhando com um pouco mais de atenção veremos que essa aparente contradição não se sustenta.

A começar pelo estudo daquele que é o órgão de maior interesse para as ciências da mente: o cérebro. Expressões como “hoje estou com a cabeça cheia” ou “estou com a minha cabeça fervendo” são expressões populares para quando estamos preocupados ou aborrecidos. Hoje temos dados científicos que vem ao encontro dessa sabedoria popular; a atividade mental é resultado de algo que acontece na cabeça – mais precisamente no cérebro. O mau funcionamento cerebral (seja por uma deficiência em seu desenvolvimento ou mesmo em função de alguma lesão – por exemplo, em um acidente) altera toda a vivência e expressão das chamadas funções mentais: memória, consciência, percepção, linguagem, movimentos… 

O cérebro, então, funciona como uma “caixa de comando”, onde são reunidas e processadas as informações e de onde partem os comandos para o restante do corpo funcionar. Através da medula e dos nervos, o corpo inteiro se encontra interligado e sob o comando do que acontece no cérebro. Mesmo as funções corporais sobre as quais não pensamos (no sentido de que não precisamos pensar conscientemente para nosso coração bater ou nossos rins filtrarem o sangue) acontecem a partir de informações enviadas do sistema nervoso – do qual o cérebro é peça chave.

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Podemos ir mais além. O que nós chamamos de emoção nada mais é do que uma reação do corpo a determinados estímulos. Ao acordar no meio da noite com um barulho muito alto e forte, nos levantamos rápido, nosso corpo contraído, um “frio na barriga”, a respiração presa, o coração batendo forte e os olhos “arregalados”. Considerando que o barulho foi causado pelo vento que bateu uma janela, depois podemos descrever a situação – “Acordei assustado”. Primeiro nosso corpo reage em uma série de atos reflexos, depois nosso cérebro interpreta estes sinais e temos a consciência “me assustei”. E a isso nomeamos como medo. 

O mesmo acontece com outras emoções. Além dos efeitos globais gerados no organismo, também acontecem efeitos mais sutis. Por exemplo, por mais que se esforce, é pouco provável que todos consigam esconder a raiva: alguma coisa na postura, no olhar ou nas expressões faciais se alteram em função da emoção sentida. Ou será que a emoção na verdade é percebida somente depois que o cérebro registra as alterações corporais? Independente da ordem em que as informações são processadas (e em se tratando de funcionamento cerebral, isso pode levar apenas algumas frações de segundo), o fato é que existe aí uma relação.

Assim, podemos dizer que as emoções estão relacionadas tanto a reações do corpo como da mente. Nas chamadas doenças psicossomáticas, disfunções físicas têm como origem desequilíbrios na vida mental/afetiva. Todos já ouvimos falar do quanto o estresse prolongado é capaz de nós levar a uma série de doenças – hipertensão, dores de cabeça, gastrite, entre outras. Do mesmo modo, algumas doenças físicas podem dar origem a alterações mentais: desde o mau funcionamento de glândulas como a tireóide, causando sintomas parecidos com a depressão; até a perda da fala ou dos movimentos, causada por lesões no cérebro (caso dos Acidentes Vasculares Cerebrais – os AVCs) ou na medula (fraturas na coluna em acidentes, por exemplo).

Problemas também acontecem quando a percepção do que acontece conosco falha. É o caso da pessoa que é muito ansiosa e apenas tem consciência disso quando os efeitos – físico e mentais – da ansiedade se transformam em um transtorno. Ou da pessoa que se torna irritadiça e não consegue dormir, sem perceber que tudo acontece em função do desequilíbrio gerado pelo estresse. Falta a percepção dos efeitos no corpo, ou dos efeitos na mente. Essa separação (ou cisão) é bastante perigosa pois nos leva gradativamente a quadros bastante complicados.

A partir disso, já poderíamos dizer que a Psicologia tem muita coisa a ver com o corpo. Afinal tudo que afeta a mente vai, através do cérebro, e em algum momento, afetar também outras partes do corpo. Não esqueçamos que somos um todo interdependente, sendo que  negligenciar qualquer uma das partes gera desequilíbrio nas outras. Desse modo, a divisão entre corpo e mente se torna apenas didática, um recurso utilizado pela ciência para tentar compreender as funções e interrelações desse ser tão complexo que é o ser humano.

A Psicologia Biodinâmica, enquanto uma abordagem da psicologia corporal, reúne conhecimentos de diversas áreas do saber ligadas a esse raciocínio. Através dessa forma de entender e agir, busca-se ampliar e fortalecer a consciência do corpo, superar a cisão, como uma forma de auxiliar no processo de tratar a mente. E vice-versa, pois a relação entre eles é dinâmica e, como vimos, profundamente interligada. 

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